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terça-feira, 18 de outubro de 2016

(REBLOGANDO) O BRASIL NÃO É MAIS UM CELEIRO MISSIONÁRIO



Por Leonardo Gonçalves

Conheci a Cristo no final dos anos 90. Minha experiência de conversão se deu em uma igreja batista recém-plantada na minha cidade. Meu batismo e minha experiência de discípulo começou no inicio do ano 2000, na igreja Assembleia de Deus. Eu vivi uma parte do movimento AD2000 (1) e da chamada  “Década da Colheita” (2), e de certa forma toda minha geração foi influenciada por estes movimentos.  Uma e outra vez, escutávamos a frase: “O Brasil é um grande celeiro de missionário”. Por nossa pequena igreja passavam alunos da “Missão Horizontes” falando sobre a janela 10/40 e sobre como o brasileiro gasta mais com Coca-cola do que com o Reino de Deus. Após o culto, nós doávamos aquilo que tínhamos para as missões. Lembro-me de um diácono pobre doando um relógio a um missionário que havia perdido o seu em uma viagem de barco na Amazônia. Lembro-me também de um amigo que constrangido pela necessidade da obra e sem nada para doar, tirou dos pés um par de tênis Nike e colocou sobre o altar, voltando para casa descalço depois do culto. A gente dava o que tinha, e não era por causa de alguma promessa de retorno financeiro (como nas campanhas dos televangelistas atuais), mas simplesmente por amor e desejo de ver o evangelho avançando entre as nações da terra. Os jovens da igreja (e eu era um deles) eram muito ativos: organizavam jograis e teatros com temas missionários, e muitos de nós queríamos ser pastores ou missionários. Hoje, vários daqueles jovens com os quais cresci são pastores, evangelistas, missionários, obreiros em suas igrejas locais, e estão envolvidos de alguma forma com a grande comissão.

UMA IGREJA QUE RESPIRAVA MISSOES

Mas eu não consigo escrever este texto sem lágrimas nos olhos. Agora mesmo, sinto o peito doer e meus olhos se enchem de água ao me lembrar daqueles dias quando a gente vivia de maneira tão intensa, organizávamos vigílias, acampamentos de oração, visitávamos, evangelizávamos de verdade. Conheço um jovem em Cristo que aos 16 anos tinha uma rotina invejável: Ele fazia semanalmente visitas no hospital da nossa pequena cidade, e saia dali direto para o asilo contrabandeando doces e bíblias para os anciãos com quem passava parte do seu domingo. Por volta das 4 horas da tarde saia dali com outros meninos da sua idade, numa kombi velha da wolksvagen para realizar visitas em uma comunidade rural e "cooperar" com os irmãos de lá. As vezes a Kombi não vinha, e eles faziam o trajeto de 18 quilômetros de bicicleta. Quando chegavam a cidade novamente, era para tomar um banho e ir ao culto, ansiosos por ouvir a Palavra pregada e dispostos a participar, seja cantando, pregando, limpando ou fazendo qualquer outra coisa na igreja local. Durante a semana, ele e outros eram voluntários no “Desafio Jovem Liberdade” – centro de recuperação para usuários de drogas – muitas vezes saindo do trabalho direto para lá, para ensinar violão, passar algum tempo de comunhão com os internos e pregar no culto da noite. Esses rapazes respiravam missões.  

Na época, surgiam seminários com cursos rápidos, em média 2 anos, em regime de internato, onde a ênfase não era apenas preparar teólogos, mas obreiros. Trabalhavam-se questões como caráter, perseverança, domínio próprio, obediência, e grande parte das disciplinas do curso eram de viés missionário. Éramos confrontados com as biografias de William Carey, David Brainerd, Hudson Taylor, Adoniran Judson, George Miller, e nos inspirávamos neles. Criticava-se o modelo de seminário que formava apenas teólogos e falava-se muito em vocação ministerial. Escutávamos uma e outra vez que ser pastor é um dom e não uma profissão, e que o ministério é muito mais dar do que receber. O ponto alto das aulas era quando por lá passava algum missionário em transito, e contava as experiências vividas naquela terra desconhecida. Lembro-me de ter ouvido um desses missionários falando sobre o país dos Incas, e de como me senti desafiado pelo testemunho daquele jovem obreiro. À noite, enquanto orava por aquele país, discerni claramente a voz de Deus falando fortemente ao meu coração: “Eu te levarei ao Peru!”. Cai em pranto, sentindo um misto de temor e imensa alegria, pelo peso da responsabilidade e pela honra recebida. Sai do meu país em 2003, quando ainda se vivia a ressaca destes movimentos.

JOVENS QUE NÃO ALMEJAM O MINISTERIO

Hoje a igreja evangélica definitivamente não é a mesma. Ela nem sequer se parece com aquela igreja de 15 anos atrás. Cada vez que viajo ao Brasil, fico absorto com a secularização cada vez maior da igreja. Vejo uma igreja rica, muito rica, mas tremendamente ensimesmada. Em círculos tradicionais e na ala pentecostal clássica, pouco se fala em evangelismo e missões. Já os neopentecostais distorceram o conceito de evangelismo e missões transformando a igreja em uma pirâmide e implementando visões celulares das mais absurdas, substituindo paixão missionária por obediência cega a um líder autoritário. Se antes os jovens desejavam o ministério, a geração atual foge dele. É comum ver rapazes de moças de vinte e poucos anos com altos salários, comprando carros importados, fundando empresas, empreendendo e ganhando muito dinheiro. Os pastores destas igrejas sofrem, pois tem que se desdobrar em mil ofícios para atender as necessidades do rebanho, já que ninguém quer se envolver no ministério e sacrificar as horas de descanso para cuidar das necessidades alheias. Alguns poucos ainda ousam se envolver com missões, mas raramente em tempo integral. Ao invés disso, doam parte das suas férias para servir em algum país exótico, e passam 4 ou 5 dias visitando alguma igreja local,  e o resto das férias em alguma praia paradisíaca do Índico ou do Pacífico. Não trabalham nada, mas tiram umas quinhentas fotos com crianças locais e chegam a suas igrejas com testemunhos fantasmagóricos acerca de como salvaram o mundo em seis dias e ensinaram os pastores e missionários locais a pastorearem suas igrejas. 

MISSIÓLOGOS DE INTERNET QUE NUNCA SE ENVOLVERAM COM MISSÕES

O conceito de missão tem sido banalizado por uma geração hedonista mais preocupada com seus prazeres do que com glorificar o Cristo entre as nações. Para justificar sua falta de coragem para encarar o campo missionário, criam-se as mais distintas agencias missionárias, muitas das quais não enviam e nem sustentam nenhum missionário, dedicando-se apenas a recrutar voluntários para viagens de ferias, exatamente do tipo que mencionei no último parágrafo. Diga-se de passagem, o dinheiro gasto por uma equipe de voluntários de férias, se fosse doado integralmente a alguma missão séria que trabalhe entre os autóctones, daria para sustentar cerca de 10 obreiros durante um ano. Crer que 20 brasileiros em uma semana podem fazer um melhor trabalho que um obreiro nacional em um ano é um sofisma, mas parece ser este o pensamento predominante nessas missões recém-criadas no Brasil (as exceções conformam a regra).

Embora não estejamos mais tão engajados com missões transculturais, nunca tivemos tantos “ESPECIALISTAS” em missões! Meninos de vinte anos, com pouca ou nenhuma formação teológica, sem experiência de vida ou ministério e cujo maior esforço missionário foi falar de Jesus para o colega de classe, editam blogs e vlogs, dão opiniões e organizam conferencias missionárias onde eles mesmos são os preletores. Recentemente um desses palpiteiros da internet, um garoto de 20 anos, escreveu um livro sobre missões. Muita gente elogiou a atitude do rapaz e não encontrei ninguém, nem mesmo entre a velha guarda evangélica (que também é ativa nas redes sociais) para colocar freio na arrogância do moleque que escreveu suas 120 paginas sobre um assunto que ele nunca experimentou de fato. Há algum tempo recebi duas equipes de voluntários na cidade de Piura, onde desde 2008 temos desenvolvido alguns projetos missionários. Um dos rapazes que nos visitou, ainda nem tinha barba no rosto, mas logo se apresentou como consultor em missões. Segundo ele, varias igrejas no Brasil contam com seus conhecimentos de consultoria. Isso me parece estranho, se considerarmos que ele nunca foi missionário de fato, apenas participou de algumas palestras com ênfase na famigerada e pouco eficaz Missão Integral (3). Recebi deste garoto que nunca fez missões, diversos conselhos sobre como treinar meus obreiros e torná-los mais efetivos. Outros chegam já satanizando a cultura, tendo visões esquisitas acerca de demônios territoriais e correntes que estão aprisionando nossa igreja e missão, algo muito esquisito e sem bases bíblicas em minha opinião. 

UMA JUVENTUDE QUE QUER ENSINAR, MAS NÃO SE PRONTIFICA A APRENDER

Durante os dois últimos meses visitei varias igrejas no Brasil e por onde passei, desafiei pessoas para virem ao campo missionário no Peru, e o máximo que consegui foram uns garotos meio-hippies dispostos a vir salvar o mundo em uma semana e ensinar os pastores a pastorear suas igrejas. Todos os rapazes com quem falei queriam vir e ditar seminários, palestras, conferências, treinamento para pastores, e não atentavam para o ridículo das suas propostas, já que eles mesmos nunca pastorearam nem suas próprias famílias. No entanto, nenhum deles se mostrou disposto a passar ao menos um ano trabalhando de forma sistemática e fiel junto aos nativos, participando da vida, da luta e das dores do povo, compartilhando a comida e vivendo a verdadeira essência da missão. Todos queriam ensinar, ninguém estava disposto a viver. Todos queriam vir e impor; ninguém estava disposto a vir, viver e receber. Todos queriam formar obreiros, ninguém queria ser formado como obreiro. Todos queriam vir correndo e voltar; ninguém estava disposto a vir e permanecer. Cada um tinha uma visão diferente para a igreja peruana, mesmo sem ter conhecido de perto este campo missionário. Todos tinham receitas exatas para fortalecer o ministério local, mas ninguém queria servir no ministério. Muitos reis, nenhum servo. Como diria o pastor Kolenda, de saudosa memória, simplesmente “muito cacique para pouco índio”.

UMA IGREJA SECULARIZADA QUE NÃO AMA MISSÕES

Não posso dizer exatamente onde foi que a igreja errou (não se preocupem, deve ter algum conferencista de vinte anos capaz de decifrar este mistério!). Porém, mesmo sem saber exatamente, acredito que alguns fatores são visíveis e fáceis de discernir: economia estável, bons empregos, oportunidade de fazer duas, três, quatro faculdades, anos de pregação antropocêntrica que exclui o sacrifício como parte da experiência cristã, tudo isso contribuiu para uma horrível secularização da igreja. Se eu fosse dispensacionalista, não teria dificuldade em aceitar que a igreja está vivendo a “Era de Laodicéia”. A igreja de Laodiceia e a igreja brasileira são irmãs: As duas são ricas materialmente, ensimesmadas, autossuficientes. As duas estão corroídas pelo pecado, empobrecidas de galardão e cegas quanto a sua real situação.  Se há algumas décadas dizia-se que o Brasil era um celeiro de missões, hoje tenho certeza que este título deve pertencer a algum outro país: China, Índia, Coreia do Sul, talvez... Mas definitivamente, esse título já não se pode aplicar ao Brasil.

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Leonardo Gonçalves é missionário há 11 anos. Neste período ajudou a plantar e consolidar igrejas no Brasil, Argentina (Patagonia e província de missiones), e no norte de Peru. Desde 2008 vive na cidade de Piura, envolvendo-se na plantação de 7 igrejas autóctones. O Projeto Piura sustenta hoje 6 obreiros autóctones e ajuda a 60 crianças provindas de comunidades carentes do Peru.

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NOTAS:

1. O Movimento Ano 2000 (AD 2000) surgiu de uma reunião em janeiro de 1989, em Singapura, onde foi realiazada uma Consulta Global de Evangelização Mundial para o ano 2000 e Além. Esta consulta deu origem ao movimento denominado AD 2000, cujo enfoque eram os povos não alcançados da chamada ‘janela 10/40’.


2. A Década da Colheita foi o resultado de um encontro de líderes das Assembleias de realizado nos Estados Unidos, em 1988. Foram também estabelecidas metas bem claras para a AD no Brasil, para serem alcançadas até o ano 2000: (1) Levantar um exército de três milhões de intercessores; (2) Ganhar 50 milhões de almas para Cristo; (3) Preparar 100 mil obreiros dispostos a trabalhar na seara do Mestre. (4) Estabelecer 50 mil novas igrejas em todo o Brasil; e (5) Enviar novos missionários para outras nações.

3. Não é que eu me oponha totalmente a Missão Integral. Minha crítica a este movimento pode ser resumida em poucos pontos: (1) A terminologia Missão Integral é, por si, uma redundância. Se é missão cristã, deve ser integral, e se não for integral (no sentido de total), não é missão. (2) Os promotores da Missão Integral no Brasil parecem se inspirar mais no marxismo do que na Bíblia. Um dos líderes desse movimento chega a apresentar o comunismo como uma ideia bíblica de comunidade. Ora, confundir comunidade cristã com uma ideologia que foi responsável por milhões de mortes no mundo, incluindo muitos cristãos, é uma boçalidade. (3) O discurso da Missão Integral tem servido de plataforma política para ideias esquerdistas, e sua super-ênfase no social tem levado alguns a pregar um conceito que beira a salvação pelas obras, algo abominável do ponto de vista bíblico. (4) Nunca vi um leprosário criado ou mantido por adeptos da Missão Integral.

FONTE: http://www.pulpitocristao.com Leia outros ótimos artigos encontrados neste blog.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Teologia Bíblica de Missões e o AT - Parte 2 - O Nacionalismo da Religião de Israel


Quando estamos falando ou formando uma teologia missionária, é fundamental considerarmos a história da religião do povo de Israel. Precisamos entender o seu aspecto nacional e o porquê dele para não acharmos que no AT a religião se tornou particularista.
  
Fato é que em todos os povos e culturas de todos os tempos podemos encontrar a presença da religião. Exceto os povos ocidentais modernos que tentam se afastar de aspectos religiosos, todos os outros povos os buscam ao longo de toda a história. 

A grande diferença entre as religiões e A Religião está em seu ponto inicial, sua essência. As religiões ao redor do mundo estão baseadas na cultura, história, psicologia ou fé humana e suas ideias indutivas e especulativas sobre o mundo e suas questões. A religião do AT não surgiu dentro do homem ou seus pressupostos e referências, mas foi criada pelo próprio Deus. Portanto, ela é fruto de uma ação divina na história humana. Esta religião é também um monoteísmo étnico, divinamente inspirado, que preserva o homem da desorientação do panteísmo na idolatria e no espiritismo. Ela foi criada para sustentar a esperança inspirada no Redentor (Gn 3.15 – o protoevangelho). Por fim, é o chamado divino de uma minoria seletiva usada como instrumento missionário para a humanidade. 

A religião de certa forma se tornou, sim, particularista, mas apenas em método, não em promessa, designo e efeito. A ideia de um Deus particularista não pode acontecer, pois assim Deus deixaria de ser Eloim o Deus da criação e o Deus das nações. 

Em Rm. 1, Paulo apresenta uma interpretação teológica da história religiosa das nações. O mundo estava se perdendo na idolatria, sensualidade e depravação. Deus, então, o julga e entrega esse mundo a si mesmo. O pecado foi punido com o próprio pecado e aí vemos o processo de degeneração e perdurou séculos e séculos. Então as nações criam suas próprias culturas e religiões. O mundo entra em um processo contínuo de obscurecimento espiritual. Fica nesse ponto claro que o homem por si só não pode encontrar a Deus. O que nos faz entender que era então necessário que Deus intervisse diretamente na história como o fez. 

Deus penetrou na história para procurar Abraão e não o contrário.  

Essa religião nacional representa um ponto de virada na história das religiões.  

A religião é o cimento que mantém a cultura unida. Religião sem o Deus verdadeiro inevitavelmente leva a imagem inadequada do homem, do pecado e da natureza. Sendo assim a religião é uma fonte para o bem ou para o mal e isso vai depender do conceito de Deus por trás dessa religião. 

A escolha de Israel como o povo que carregaria a religião do AT não foi arbitrária de favoritismo, de particularismo conservador e nacionalista. Foi um ato da soberania e escolha gloriosa para preservar a raça e o destino temporal e eterno da humanidade. 

Dessa forma Israel é o povo mediador entre Deus e as nações. A nação que deveria revelar a revelação única que recebera de Deus. Sendo assim, nesse método particularista, Israel é chamada para ser um CANAL e não um DEPÓSITO de bênçãos.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Teologia Bíblica de Missões e o AT - Parte 1

Quando tratamos de uma missiologia no antigo testamento percebemos que existem várias considerações a se fazer. Precisamos entender o caráter missionário de Deus já nos primeiros dias da humanidade. Também é importante refutar a ideia de que no Antigo Testamento (AT) a revelação tem um aspecto totalmente e somente nacionalista.

É muito importante entendermos que nos relatos de Gênesis 1-11 a revelação alcançou a toda a humanidade. Antes de ter um aspecto nacionalista a revelação era racial, portanto, toda a raça humana teve acesso à revelação. Depois, então, um aspecto nacionalista a partir de Abraão e por todo o AT. No Novo Testamento (NT) a revelação se torna eclesiástica finalmente.

Vou tratar dos primeiros 11 capítulos de Gênesis: a revelação racial e o chamado protoevangelho.

Adão, não é apenas o pai biológico de toda a humanidade, mas ele é a criação e a encarnação de toda a raça humana. Portanto, Adão é líder biológico e legal de toda a raça humana. Sendo assim, a raça humana é muito mais do que um amontoado de gente ou um número a ser considerado, mas um único organismo. Todo ser humano queira ou não, faz parte desse organismo. Esse “corpo” colossal de acordo com sua origem e natureza anuncia seu pai, Adão. Isso envolve todo o caráter inclusivo da derrota e universalidade do pecado (Rm 5.12; 3.10-12,23), com a necessidade do novo nascimento de cada indivíduo (Jo 3.3), e a encarnação de Cristo como o Salvador e Redentor (Rm 5.12-21).

Gênesis 3.15  é uma promessa feita a toda a humanidade. Em meio a noite mais escura da humanidade, brilha a estrela da manhã. Essa é uma promessa de importância universal, sendo assim, alcança a todos os indivíduos da terra.

“Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar".

Essa promessa sustenta seis fatos:

11-    A Salvação é operada por Deus. Ele é quem providencia e opera a obra da salvação, não o humanismo ou a autoredenção. É uma promessa e obra de Deus. Assim a salvação é cheia de graça, originada e operada em e por Deus, que a obtém.

22-    A salvação destruirá Satanás, o inimigo. Sendo assim, o mal não é um castigo permanente da humanidade, mas Deus e a boa vontade triunfam finalmente.

33-    A salvação afetará a humanidade como um todo. Sim, não afetará apenas ao povo de Israel, mas toda a raça humana. Essa é uma verdade teológica presente no AT.

44-    A salvação virá através de um mediador que é humano. Verdade essa que se cumpre plenamente em Cristo, que mesmo sendo Deus se tornou homem e foi o mediador que nos trouxe a salvação.

55-    A alvação está ligada ao sofrimento desse mediador. O inimigo deve ferir seu calcanhar.

66-    Assim como a derrota é uma parte da história, a salvação também o é.

Portanto, a salvação sustentada no AT em Gn 3.15, inclui a humanidade em promessa, provisão, propósito e potencial.

O protoevangelho, portanto, deve ser o princípio hermenêutico que conduz a interpretação do AT. A universalidade do protoevangelho é básica para a revelação do AT. Esta é também uma promessa incondicional e irrevogável. Torna-se a estrela guia por toda a história do AT até que se realize em Cristo, a Semente da Mulher.

Essa universalidade é continuada e testificada no pacto de Deus com Noé, pois, o pacto foi para com Noé e seus filhos, não Noé e Sem (seu filho) apenas (Gn 9.1,8,9).


Estudo baseado no livro Teologia Bíblica de Missões de George W. Peters.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Teologia Bíblica de Missões (TBM) e Jesus Cristo.


Quero através deste texto, levá-los a refletir a respeito da Teologia Missionária e Jesus Cristo. Não é um texto exaustivo, mas simples e objetivo.

A obra missionária com certeza está baseada na vida de Cristo, o messias, ou em sua espera como o salvador do mundo. Veremos que no antigo testamento a teologia missionária se baseia na posição missionária do povo escolhido, de abençoar todos os povos da terra. No novo testamento, a vida, os ensinos e a confirmação das profecias na vida do mestre Jesus Cristo, assim como, a vida e ensinamentos de Seus apóstolos eram a base teológica para a Igreja primitiva ser uma igreja missionária, ou que representava a Cristo em seu contexto.

Considerando esses pontos que serão trabalhados em outros textos, podemos ver que tudo gira em torno do Messias. Muitas vezes não conseguimos entender Sua ligação com a Teologia Bíblica de Missões. Basicamente veremos a relação de Jesus Cristo, que é Deus, com o mundo (cosmos).

É inegável que o ministério de Jesus estava concentrado nos Judeus. Jesus mesmo declarou que veio para as ovelhas perdidas de Israel. Vemos isso muito claro no encontro de Jesus com a mulher Cananéia.

Saindo daquele lugar, Jesus retirou-se para a região de Tiro e de Sidom. Uma mulher cananéia, natural dali, veio a ele, gritando: "Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Minha filha está endemoninhada e está sofrendo muito". Mas Jesus não lhe respondeu palavra. Então seus discípulos se aproximaram dele e pediram: "Manda-a embora, pois vem gritando atrás de nós". Ele respondeu: "Eu fui enviado apenas às ovelhas perdidas de Israel".
Mt 15:21-24

Entretanto, no mesmo episódio vemos Cristo respondendo a oração dessa mãe. O Seu ministério estava ligado ao povo de Israel, mas não era exclusivista. Poderia gastar páginas nesse episódio, mas não é esta a intenção. O que precisamos entender é que declaradamente Jesus veio para o povo de Israel.

Apesar de Jesus vir para o povo de Israel, em João temos a certeza de que Jesus veio e morreu para Salvar o mundo. Seu ministério terreno era para com os Israelitas principalmente, mas vemos Jesus, com a mulher cananéia, um centurião, uma samaritana e outros gentios durante seu ministério. Seu foco foram os Judeus, mas a sua vinda para terra no sentido salvífico era para todos os povos, o mundo (cosmos).

Segundo George W. Peters:
Em cristo, Deus está relacionado diretamente a este mundo conhecido como cosmos. João usa esse conceito79 vezes e demonstra as várias relações de Deus como cosmos. Nos termos mais fortes possíveis, João introduz a atividade universalista de Deus. Deus não é um particularista em seus interesses, amor e relações; Ele conduz o mundo segundo seu coração e propósito.
Somos informados de que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito...” (3.13). “Porque Deus enviou o Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (3.17). Somo informados de que Cristo é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (1.29); “o Salvador do mundo” (4.42); “o pão de Deus que é aquele que... dá via ao mundo” (6.33); “a luz do mundo” (8.12; 9.5; 12.46). Fala-se do Espírito Santo como o Consolador que irá condenar ou “convencer o mundo” (16.8).

Vemos que Deus está interessado no mundo, e não apenas no povo de Israel. Mesmo porque, desde o início Deus chamou um homem e fez dele um povo para abençoar TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA.

O ponto central da pregação de Jesus era o Reino de Deus. Desde o início de seu ministério até o fim, o vemos pregando o reino de Deus.

Marcos nos mostra que Jesus começou sua pregação dessa forma:
1:14 - Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galiléia, proclamando as boas novas de Deus. "O tempo é chegado", dizia ele. "O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas! "

Atos nos mostra que com um discurso sobre o Reino, Jesus terminou sua pregação na terra:
1:3 - Depois do seu sofrimento, Jesus apresentou-se a eles e deu-lhes muitas provas indiscutíveis de que estava vivo. Apareceu-lhes por um período de quarenta dias falando-lhes acerca do Reino de Deus.

Quando falamos de “Reino de Deus” observando a pregação de Cristo, ou o tema por todo o antigo e novo testamento, percebemos que esse é um reino de aspecto individual, nacional, racial e cósmico. Também é espiritual, moral, social; terreno e atual, embora eterno e sobrenatural.

Este reino pode ser considerado de Três formas:
- O domínio de Deus no coração do homem.
- O domínio de Deus na Igreja.
- O domínio de Deus no mundo.

A revelação central de Cristo era a paternidade de Deus.
Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido. João 1:18 
Jesus é quem nos revelou a Deus. Não vemos a Deus, mas vemos ao Cristo, que é Deus e esteve entre nós. Ao se revelar, Jesus revelava a Deus.
Deus é apresentado por Jesus como Pai em Mateus 44 vezes; em Marcos, 5 vezes; em Lucas, 16; e em João 109. Um total de 173 vezes.
Cristo nos fala sobre “Meu pai” demonstrando sua relação metafísica com Deus. Nos mostra o “vosso pai” estabelecendo a nossa relação filial com Deus. E revela “Pai” o Deus pai de toda a humanidade, o Deus criador de todas as coisas.

Sua única auto identificação foi “o Filho do Homem”.
Jesus se identifica dessa forma em Mateus, 32 vezes; Marcos, 14; Lucas, 26; e em João, 12. A grande questão surge é o que Jesus queria dizer se identificando dessa forma?
Baseado no antigo testamente podemos ver que Jesus se apresentando como o Filho do Homem ele clamava para si:
- A realidade da sua humanidade.
- O homem ideal, que sendo “filho de... Adão, de Deus” (Lc 3.23-38) ele era o filho do Homem e não de uma nação ou raça qualquer. Ele é o homem de ralações universais.
- O sucessor dos Profetas. Podemos ver essa ligação pela profecia de Ezequiel, onde o “Filho do Homem” é o título daquele ao qual Deus se dirige de uma maneira única e que representa Deus para o povo.
- O messias prometido.
- Relacionado unicamente a Deus e a seu Reino. Essa ligação é apresentada em Daniel 7.13-14.

Seu proposito fundamental: sua morte e ressurreição reconciliadoras.

Jesus é o bom pastor que oferece sua vida pelas ovelhas. (Jo 1.29; 10.11; Mc 10.45)

Sua comissão pós-ressurreição era universal.

Vemos em Mateus 27 que Jesus envia seus discípulos para todas as nações e em Marcos 16 para toda criatura.

Universalidade de Seu ministério.

Mesmo depois de vermos a declaração de Jesus para a mulher Cananeia, veremos que Jesus tinha um ministério universalista quando ele se encontrava e libertava gentios:
João 4, a Mulher samaritana; Mateus 15, a mulher cananéia; Mateus 8, o centurião de Cafarnaum; Marcos 5, a libertação do homem gadareno.

Universalidade esta que também vemos em Seus ensinamentos.

Vemos Jesus ensinando que somos o Sal da Terra, Luz do mundo; a vontade de Deus deve ser feita “assim na Terra...”; “em todas as partes do mundo onde evangelho for pregado” (Mc 14.9).

Conclusão:

Jesus é o motivo de sermos o que somos. Ele é nosso reconciliador com Deus. Cristo nos chamou para pregar ao mundo. Ele mesmo quando veio o fez, apesar de estar entre um povo específico ele pregou para todos. O reino de Deus é para todo aquele que o buscar e o encontrar através de Cristo. Sua obra terrena nos demonstra o caráter universalista de seu ministério e sacrifício, assim como sua comissão pós-ressurreição.

Sua vida, teologia, auto identificação, pregação, propósito, revelação e ministério, têm um caráter universalistas. Não seremos todos salvos, mas a salvação é para todo que o buscar e achar.

Braian Pitondo

domingo, 13 de dezembro de 2015

Eleito, OK, mas para que? (Estudo 1)

Não importa a sua crença em relação à eleição, seja eleição condicional (baseada na pré-ciência de Deus) ou incondicional (fui escolhido de antemão por Deus para a salvação), todos concordamos que somos eleitos. Não quero me prender ao tema eleição, mas à grande questão que surge a partir do pressuposto de que somos eleitos.

Para que fomos eleitos?

Sei que graciosamente fomos salvos, mas será que fomos eleitos com o propósito de sermos salvos? Será que simplesmente por que um dia nos perdemos e em seu infinito amor o Senhor nos quis reconciliar consigo? Ou será que a bíblia em algum lugar nos explica o propósito de termos sido salvos ou eleitos?

Primeiro precisamos entender algumas verdades bíblicas:

Gênesis 12:1-3
Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.

- Deus escolheu um homem e dele CRIOU um povo.
E far-te-ei uma grande naçãoDeus promete a Abraão que será feito, a partir dele, uma grande nação. Essa nação será chamada de Israel mais adiante na bíblia. O tão famoso povo escolhido de Deus.

- Esse povo foi criado com um propósito.
E tu serás uma bênçãoquando Deus diz a Abraão, aqui ainda chamado Abrão, que ele será uma benção, essa promessa se estende aos seus descendentes. É através deles que ele será uma benção para todas as famílias da terra. Em outras palavras essa grande nação será uma benção. E será uma benção para TODOS os povos da terra.
Obs: durante toda sua história esse povo recebe vários nomes como geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus. Vemos vários nomes que o povo de Israel recebeu em textos como Dt 10.15; 1Sm 12.22; Ex 19.6; Is 62.12; Tt 2.14...

- Esse povo rejeita sua posição como O povo de Deus.
1 Pedro 2:7,8
Portanto, para vocês, os que creem, esta pedra é preciosa; mas para os que não creem, "a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular", e, "pedra de tropeço e rocha que faz cair". Os que não creem tropeçam, porque desobedecem à mensagem; para o que também foram destinados
.
Quando rejeitam ao messias prometido, que é Jesus Cristo, a pedra angular, eles tropeçam e decaem de sua posição. Pois, desobedeceram à mensagem para a qual também foram predestinados.

- Esse privilégio então passa para outro povo:
Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.
1 Pedro 2.9

Esse privilégio agora será carregado pela igreja, que espiritualmente representa o novo Israel de Deus. Somos nós agora o povo escolhido, aqueles que receberam e se firmaram na pedra angular que é Jesus Cristo.
Nós somos o povo de Deus (geração eleita); representantes dEle e ponto de encontro deste mundo com Deus (sacerdócio real); cidadãos não deste mundo, mas dos céus (nação santa); e por fim somos dEle, pertencente à Deus e somente a Ele (povo exclusivo de Deus).

 - Assim como Israel fomos feito povo de Deus por um propósito.
PARA anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz – para cumprir o propósito de sermos Seus, que é anunciar as grandezas daquele que nos chamou das trevas para a luz. Quem nos chamou das trevas para a luz foi o cristo, com o seu ato salvador. Somos os Seus representantes aqui na Terra. Devemos, portanto, com nossas palavras e vidas anunciar quem Deus é, e o que Deus fez para nos dar a vida. Assim seremos uma benção sobre todos os povos. Cumprindo-se, então, em nós a promessa de que todos os povos seriam abençoados.
Mas para isso precisamos cumprir nossa função como povo escolhido de Deus, como ELEITOS. Que é: Sermos uma benção para todas as famílias da terra, anunciando as grandezas daquele que nos tirou das trevas para a sua maravilhosa luz.